As Naves Espaciais

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Os primeiros protótipos das naves soviéticas e norte-americanas começaram a voar a partir de 1959. Ao mesmo tempo, os dois países treinavam intensamente as suas futuras tripulações espaciais [ americanos ] e [ soviéticos ].

Os soviéticos efetuaram no mínimo 6 lançamentos, e os americanos 9, com naves sem tripulantes ou tripuladas por uma fauna variada (pulgas, vermes, gatos, cães, macacos). Muitas vidas animais foram perdidas, e outras cobaias foram recuperadas a salvo.

A nave Vostok

A primeira perda humana documentada, relacionada a naves tripuladas, foi a do astronauta soviético Valentin V. Bondarenko, num incêndio em treinamento no simulador da nave Vostok, no dia 23 de março de 1961.

Nave Vostok

Crédito: TASS

Duas semanas depois, em 12 de abril de 1961, os soviéticos lançaram a nave Vostok 1, tripulada por Yuri Gagarin, o primeiro astronauta de todos os tempos, que completou 1 órbita ao redor da Terra, pousando 1 hora e 48 minutos após a decolagem.

A nave Mercury

A resposta americana foi quase imediata: em 5 de maio de 1961 foi lançada a Mercury MR3 (Freedom 7), com o astronauta Alan Shepard, o primeiro americano a subir ao espaço.

Ao contrário de Gagarin, porém, Shepard realizou apenas um vôo balístico; o tempo da viagem foi de 15 minutos, dos quais 5 sem gravidade.

John Glenn, a bordo da Mercury MA6 (Friendship 7), lançada em 20 de fevereiro de 1962, finalmente realizou o primeiro vôo orbital americano, praticamente 1 ano após Gagarin.

  Nave Mercury

Crédito: NASA

Seguiram-se novos lançamentos das cápsulas Vostok (total de 6 lançamentos tripulados) e Mercury (total de 6 lançamentos tripulados); ambas as naves demonstraram ser bastante inseguras, tendo seus astronautas corrido riscos sérios em diversas oportunidades.

Os resultados das séries Vostok e Mercury faziam crer que a Lua estava um pouco mais perto dos soviéticos do que dos norte-americanos.

O próximo passo foi a construção de naves tripuladas por mais de uma pessoa; os americanos projetaram as naves Gemini, para 2 pessoas, e os soviéticos adaptaram a Vostok para 3 pessoas, chamando o novo projeto de Voskhod.

A nave Gemini

Nave Gemini

Crédito: NASA

A nave Gemini era de manutenção mais fácil do que a Mercury, e mais manobrável no espaço. Os objetivos do Projeto Gemini eram: 1) construir uma nave capaz de levar 2 astronautas e equipamentos de suporte para vôos de longa duração (até 14 dias), o que era indispensável para futuras viagens à Lua, 2) realizar acoplamentos com outros veículos espaciais e manobrar os veículos acoplados a partir dos motores do veículo alvo, 3) aperfeiçoar métodos de reentrada e pouso em locais previamente estabelecidos (em terra, idéia que foi posteriormente abandonada), 4) adquirir mais informações a respeito dos efeitos da falta de gravidade nos seres humanos e analisar as reações fisiológicas em vôos de longa duração.

As naves Gemini 1 e 2 foram lançadas sem tripulação; a primeira Gemini tripulada (Gemini 3) foi lançada em 23 de março de 1965, tripulada por Virgil Grissom e John Young.

A nave Voskhod

Nave Voskhod

Crédito: TASS

  No dia 12 de outubro de 1964 foi lançada a Voskhod 1, com 3 astronautas: Vladimir Komarov, Konstantin Feoktistov e Boris Yegorov.

Em 18 de março de 1965 foi lançada a cápsula Voskhod 2, com dois astronautas (Pavel Belyayev e Alexey Leonov). Durante este vôo de 1 dia, Leonov realizou o primeiro passeio espacial.

Foram lançadas apenas 2 naves Voskhod tripuladas, que eram tão ou mais inseguras do que as Vostok que lhes deram origem.

Após o encerramento da série Voskhod, os soviéticos dedicaram-se ao projeto das novas naves Soyuz, que ainda permanecem em operação até hoje.

Os americanos, por sua vez, realizaram um total de 10 lançamentos tripulados das naves Gemini; todos os seus objetivos foram alcançados, e os norte-americanos dominavam perfeitamente as técnicas de manobras no espaço, encontro espacial, acoplamento, caminhada espacial, além da capacidade de pousar uma nave em segurança.

Gemini x Voskhod

Ao contrário das naves Voskhod, que não apresentavam muitas melhorias técnicas em relação ao projeto da Vostok, as naves Gemini foram uma evolução significativa, capazes de feitos que os soviéticos não tinham nem tentado. Apenas em outubro de 1964, com a deposição de Nikita Khrushchev do poder da União Soviética, Korolev pôde retomar seu antigo projeto, a nave Soyuz. Todas as expectativas soviéticas se direcionaram para a nova nave Soyuz, cujo projeto estava atrasado por causa do imenso esforço dispendido com as Voskhod.

Torna-se claro que a decisão pela Voskhod foi um erro, motivado por interesses políticos, tais como a busca de recordes desnecessários (como enviar 3 astronautas numa só nave) em detrimento de interesses técnicos (basicamente a manobrabilidade e a capacidade de acoplamento seguro).

O caminho que os americanos tomaram com o Projeto Gemini foi mais técnico, mais sensato e apresentou resultados muito melhores. A Lua, agora, começava a ficar mais perto dos americanos.

A morte de Korolev

Não bastasse a demasiada ingerência política do Politburo Soviético nos projetos espaciais, a U.R.S.S ainda sofreu um abalo terrível: a morte do "Projetista-chefe" Sergei Korolev durante uma cirurgia, em 14 de janeiro de 1966. Este fato desorientou os soviéticos, que no entanto deram continuidade aos projetos de Korolev.

A nave Apollo

Em 26 de fevereiro de 1966 foi realizado o primeiro teste do foguete Saturn I-B, que carregava apenas o cone aerodinâmico de uma cápsula Apollo. Foi um vôo sub-orbital, que recebeu o nome de Apollo AS-201. O cone aerodinâmico foi resgatado normalmente. Esta missão foi extraoficialmente conhecida, na época, como Apollo 1. O primeiro teste com uma cápsula foi realizado em 25 de agosto de 1966, com sucesso.

A nave Soyuz

O primeiro teste geral da nave Soyuz foi efetuado em 28 de novembro de 1966 (já após a morte de Korolev), com o lançamento do Kosmos 133. Foi um fracasso. Novos testes acidentados se seguiram.

Uma nave Soyuz é composta por 3 módulos: um módulo orbital, um módulo de pouso em forma de sino e um módulo de instrumentos, como visto no diagrama abaixo.

Nave Soyuz

Crédito: TASS

Além do Projeto Soyuz, a União Soviética também desenvolveu o Projeto Zond - na realidade, uma nave Soyuz sem o módulo orbital, que seria utilizada nas viagens à Lua. Nenhuma nave Zond recebeu tripulação humana, embora cargas biológicas tenham ido até a órbita lunar e voltado à Terra com segurança. A última Zond voou em 1969.

Nave Zond

A morte de Virgil Grissom, Edward White e Roger Chaffee

No dia 27 de janeiro de 1967 ocorreu um acidente fatal, durante um treinamento realizado a bordo da cápsula Apollo AS-204 (Apollo 1). Este acidente, que causou a morte dos astronautas Virgil I. Grissom, Edward H. White e Roger B. Chaffee, foi causado por um incêndio a bordo da nave (módulo de comando) durante testes realizados no solo.

Os astronautas respiravam uma atmosfera de oxigênio puro a baixa pressão. Um curto circuito provocou uma faísca, que produziu uma explosão e liberação de monóxido de carbono. As chamas tomaram conta do laboratório onde a nave estava instalada, e por muito pouco não ocorreu um incêndio de proporções gigantescas na NASA. Quando a porta da nave Apollo finalmente conseguiu ser aberta, já era tarde, e os três astronautas jaziam mortos em seus assentos. Este acidente provocou a suspensão dos vôos por cerca de um ano.

A morte de Vladimir Komarov

Os soviéticos prosseguiam nos testes da Soyuz, até que nova ingerência política causasse a morte de um astronauta.

Por ordem expressa de Leonid Brezhnev (todo-poderoso Secretário-Geral do Partido Comunista Soviético), os cientistas prepararam uma missão tripulada na nave Soyuz, que ainda não estava capacitada para a tarefa de levar um ser humano ao espaço e trazê-lo de volta com segurança.

Assim, em 23 de abril de 1967, a Soyuz 1 foi lançada com o astronauta Vladimir Komarov. Diante de diversos problemas com a nave, foi ordenado o seu retorno imediato.

Komarov disparou o retrofoguete e a nave entrou normalmente na atmosfera. No entanto, o pára-quedas principal não abriu, devido a problemas com um sensor de pressão, e o pára-quedas de reserva, acionado manualmente, também não funcionou. Komarov estava consciente e no comando da Soyuz até o momento do acidente, que espatifou completamente a nave e matou o astronauta imediatamente, despedaçando o seu corpo.

Esta tragédia obrigou os soviéticos a um reprojeto da nave, com o cancelamento de novos vôos tripulados por um ano e meio.

A Lua, a qualquer preço

O ex-presidente americano John F. Kennedy, indignado após o lançamento de Gagarin, havia prometido levar um americano à Lua e trazê-lo de volta antes do fim da década (de 1960). Talvez esta bravata passasse em branca núvem não fosse o surpreendente assassinato de Kennedy, em 22 de novembro de 1963.

A partir deste desafio, tanto os americanos quanto os soviéticos se envolveram numa disputa insana cujo objetivo era a chegada à Lua, e cujos meios eram os foguetes, a ciência e a irresponsabilidade. Em pouco mais de 4 meses, no ano de 1967, os dois contendores envolvidos na disputa tiveram perdas humanas e precisaram deter os projetos e refazê-los.

O preço da conquista da Lua estava ficando muito alto.

A glória da Apollo

A nave Apollo, remodelada após o acidente que matou Grissom, White e Chaffee, deu aos americanos sua maior glória na corrida espacial: o pouso seguro na Lua.

Lançada em 16 de julho de 1969, a nave Apollo 11, tripulada por Neil Armstrong, Michael Collins e Edwin Aldrin, alunissou no dia 20 de julho, no Mare Tranquillitatus (Mar da Tranqüilidade).

 

Armstrong foi o primeiro homem a caminhar na Lua, seguido por Aldrin.

Crédito: NASA

Foram realizadas mais 6 missões à Lua, sendo 5 bem sucedidas. A Apollo 13 sofreu uma explosão quando estava a caminho de seu objetivo. A alunissagem foi cancelada e os astronautas foram trazidos de volta, enfrentando riscos imensos.

Salvaram-se graças a uma imensa capacidade de improvisação e muita sorte.

Três naves Apollo ainda foram utilizadas para transportar tripulações para a estação espacial americana Skylab em 1973.

A última missão realizada por uma nave Apollo foi o projeto conjunto americano-soviético chamado ASTP (Apollo-Soyuz Test Project). A cápsula foi lançada em 15 de julho de 1975. O acoplamento com uma nave Soyuz foi realizado no dia 17. A tripulação de cada nave visitou a outra, e foram realizadas experiências conjuntas e reportagens de rádio e TV. Nesta missão os objetivos políticos foram mais importantes do que os científicos.

Mais mortes soviéticas: Dobrovolski, Volkov e Patsayev

Em 6 de junho de 1971 foi lançada a Soyuz 11, tripulada por Giorgi Dobrovolski, Vladislav Volkov e Victor Patsayev. Foi o primeiro vôo bem sucedido de uma nave espacial acoplada a uma estação espacial, numa missão de 22 dias. Infelizmente, porém, os três astronautas morreram na volta, vítimas de uma embolia devido a problemas em uma válvula de equalização de pressão, que abriu indevidamente a cerca de 168 km de altura, no dia 29 de junho.

A glória da Soyuz

As naves Soyuz foram as responsáveis pelo grande sucesso soviético na conquista espacial: o transporte de tripulações humanas até as estações espaciais Salyut, Mir e ISS. São as únicas naves ainda em uso, com um índice de confiabilidade muito alto.

Os soviéticos ainda projetaram e construíram os cargueiros espaciais Progress, que igualmente permanacem em uso.

Também construíram a nave TKS (uso militar) para acoplamento com as estações militares da série Salyut. Nunca foi lançada uma nave TKS tripulada.

A nave Shenzhou

Após a queda da União Soviética, a China comprou a tecnologia das naves Soyuz, produzindo a nave Shenzhou. O módulo orbital da Shenzhou foi reprojetado, assumindo, curiosamente, um formato semelhante ao do projeto original da Soyuz-A proposto por Korolev em 1962.

O primeiro lançamento tripulado foi realizado em 15 de outubro de 2003, quando Yang Liwei tornou-se o primeiro astronauta chinês.

As naves privadas

O prêmio Ansari X (X Prize), no valor de US$ 10 milhões, foi instituído pela família Ansari, de Dallas, Texas (Estados Unidos), para recompensar o primeiro veículo financiado unicamente por recursos privados, com capacidade para três pessoas, que alcançasse 100 km de altitude duas vezes em duas semanas.

O prêmio foi inspirado no Orteig, galardão conquistado em 1927 pelo piloto do Spirit of St Louis, Charles Lindbergh, que fez o primeiro vôo transatlântico.

Diversos concorrentes se increveram, mas a primeira nave a repetir um vôo tripulado de 100 km de altitude em 14 dias foi a SpaceShipOne, em 4 de outubro de 2004. Esta data foi escolhida em homenagem ao primeiro satélite artificial, o Sputnik 1, lançado pela União Soviética em 4 de outubro de 1957.  

História da Conquista Espacial © Karl H. Benz