A Guerra Fria (1945-55)

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"A Guerra Fria foi um período em que a guerra era improvável, e a paz, impossível."

Raymond Aron, sociólogo, historiador, filósofo e jornalista político francês

A história da segunda metade do século XX foi inteiramente condicionada pelos resultados da II Guerra Mundial, com seus mais de 50 milhões de mortos. O bloco dos Aliados, que venceu a guerra, era composto principalmente por Estados Unidos, União Soviética e Inglaterra. Como a Inglaterra fora quase completamente destruída pelos bombardeios alemães, Estados Unidos e União Soviética emergiram claramente como as duas superpotências do mundo, e uma rivalidade entre ambos era inevitável.

Para um melhor entendimento da situação política em que o mundo se encontrava na época dos primeiros lançamentos espaciais realizados por soviéticos e norte-americanos, torna-se necessária uma breve descrição do que foi a Guerra Fria. Por motivo de praticidade, o período no qual se travou a Guerra Fria foi dividido em períodos, sendo que este primeiro foi arbitrado entre 1945 (fim da II Guerra e início da Guerra Fria) e 1955 (criação do Pacto de Varsóvia).

A II Guerra terminou com o Eixo sendo derrotado pelos Aliados. O Eixo era constituído basicamente por:

Os Aliados eram principalmente constituídos por:

Uma análise mais aprofundada da II Guerra escapa da alçada deste site. Recomenda-se a leitura de livros e artigos especializados.

A II Guerra terminou com a Inglaterra, fortemente atacada pelas bombas alemãs, antigo império, vencendo a guerra mas perdendo o status de império; a Alemanha, antigo império emergente, completamente destruída; a União Soviética, embora fortemente abalada pela guerra e com quase 20 milhões de vítimas, já havia se consolidado como potência; e os Estados Unidos, que haviam entrado tarde na guerra, emergindo como novo império.

General George S. Patton   Conta-se que o prepotente e indisciplinado general norte-americano George Smith Patton (1885-1945), comandante do III exército, teria dito, após entrar com suas tropas em Berlin, que "os Estados Unidos deveriam prosseguir a campanha até Moscou". Ou seja, invadir imediatamente o seu mais forte aliado e futuro rival, a URSS.

Não há certeza da veracidade desta afirmação, mas a chamada "Guerra Fria" já estava em gestação.

Gen. Patton

Para barrar a expansão comunista na Europa (principalmente na Alemanha), os Estados Unidos constituíram o Plano Marshall (1947), e injetaram cerca de US$ 13 bilhões na Europa ainda arruinada pela guerra. O valor pode parecer baixo, se levarmos em consideração que a invasão e ocupação do Iraque (a partir de março de 2003) já custou mais de US$ 150 bilhões; mas leve-se em consideração que o dólar daquela época era muito mais valorizado, e não se perdia tanto em corrupção e no lucro das grandes corporações. Com esta ação, os Estados Unidos consolidaram seu poder econômico; para consolidar o seu poder militar, montaram bases militares na Europa e Ásia, que "cercaram" fisicamente a União Soviética.

Por sua vez, a União Soviética anexou diversas repúblicas vizinhas (em muitos casos, pela força das armas).

Assim, foram constituídos os dois blocos hegemônicos da Guerra Fria: o capitalista, liderado pelos Estados Unidos, e que englobava principalmente o Canadá, a Europa Ocidental (inclusive a República Federativa da Alemanha) e o Japão. Era o chamado Primeiro Mundo, que se auto-denominava de "Mundo Livre".

O segundo era o bloco comunista, liderado pela União Soviética, e que englobava seus vizinhos asiáticos e a Europa Oriental (inclusive a República Democrática da Alemanha). Esse bloco era chamado pejorativamente de "Cortina de Ferro" - apelido dado por Churchill em março de 1946, no seguinte discurso:

"From Stettin in the Baltic to Trieste in the Adriatic, an iron curtain has descended across the continent. Behind that line lie all the capitals of the ancient states of central and eastern Europe. Warsaw, Berlin, Prague, Vienna, Budapest, Belgrade, Bucharest, and Sofia, all these famous cities and the populations around them lie in the Soviet sphere and all are subject, in one form or another, not only to Soviet influence but to a very high and increasing measure of control from Moscow."

Muitos historiadores citam esta fala como o rompimento formal da aliança entre Estados Unidos, Inglaterra e União Soviética e um dos instantes iniciais da Guerra Fria.

Pois a "Cortina de Ferro" era o Segundo Mundo. A China Comunista também passou a orbitar o bloco comunista após a revolução de Mao Tsé Tung (1883-1976), em 1949, embora houvessem discordâncias importantes com Moscou.

Claro que também havia o Terceiro Mundo (países sub-desenvolvidos não alinhados) - América Latina, África, alguns países da Ásia e da Oceania.

Guerras Imperialistas

Estes países foram palco de disputas internas, revoluções e guerras entre as potências imperialistas. Cite-se o caso do Irã: em 1953, o primeiro-ministro Mohammed Mossadeq (1882-1967) nacionalizou as companhias petrolíferas estrangeiras, quase todas britânicas, e rompeu relações com a Inglaterra, que ordenou um boicote internacional ao petróleo iraniano. A União Soviética apoiou o governo do Irã, e passou a comprar o seu petróleo.

A crise atingiu o auge em agosto de 1953, com a deposição de Mossadeq por um golpe militar realizado com a ajuda dos serviços secretos da Inglaterra e dos EUA. A CIA destinou 1 milhão de dólares para serem usados "para derrubar Mossadeq de qualquer maneira". Voltou ao poder o Xá Mohammad Reza Pahlavi (1919-1980), que imediatamente tornou os britânicos sócios do petróleo iraniano. Reza Pahlavi somente seria derrubado do poder em 1979 (mais uma democracia interminável...), cujo líder foi o fundamentalista xiita Aiatolá Ruhollah Khomeini (1900-1989).

Toda a América Latina permaneceu submissa a Washington até o final da Guerra Fria, exceto Cuba, zona de influência da U.R.S.S. a partir de 1959. Quando havia alguma tentativa de rebelião contra este servilismo aos interesses norte-americanos, líderes sindicais e estudantis, políticos e mesmo presidentes eram sistematicamente perseguidos e presos, muitas vezes torturados e assassinados. Era a política do Secretário de Estado, John Foster Dulles, segundo a qual "qualquer ameaça aos interesses materiais de empresas norte-americanas afetaria a segurança e o prestígio da livre iniciativa no mundo". E justificava, desta forma, qualquer ação militar com o objetivo de derrubar qualquer governo em qualquer parte do mundo. Especialmente na América Latina, zona de influência americana.

Como primeiro exemplo, pode ser citada a deposição do presidente da Guatemala, Jacobo Arbenz Guzmán, por meio de uma invasão militar coordenada pela CIA e chefiada pelo coronel Carlos Castillo Armas, em julho de 1954. Arbenz havia promulgado em junho de 1952 um projeto de reforma agrária que incluíra a expropriação de 90 mil hectares de terras não utilizadas pela United Fruits Co., a maior empresa norte-americana da região. O governo foi substituído por uma junta militar chefiada pelo sangrento Coronel Armas, que morreu assassinado a tiros em 26 de julho de 1957.

Ainda em 1954, as forças direitistas brasileiras, lideradas principalmente por Carlos Lacerda (apelidado de "O Corvo"), inconformadas com a criação da Petrobrás (e do estabelecimento do monopólio estatal do petróleo) em outubro de 1953, tentaram por todos os meios derrubar o governo eleito de Getúlio Vargas, que somente conseguiu inviabilizar a conspiração em andamento cometendo suicídio em 24 de agosto de 1954. A denúncia da ação do imperialismo na Carta-testamento de Vargas levou o povo às ruas, em protestos contra os americanos. A ação heróica de Getúlio Vargas adiou por 10 anos o golpe militar apoiado pela CIA, que finalmente veio a ocorrer em 31 de março de 1964, com a instalação da ditadura militar que desencadeou uma repressão que, em muitos momentos, foi extremamente sangrenta.

Também na Argentina fez-se sentir o peso do Tio Sam, em sua defesa da "democracia e da liberdade". O presidente Juan Domingo Perón (1895-1974) foi deposto no inverno de 1955, após séria desavença com a ultra-conservadora Igreja Católica.

Claro que esta ação imperialista de Washington não se deteve na década de 50. Como já havia denunciado Henry Agard Wallace (1888-1965), ex-vice-presidente dos EUA no mandato de Franklin D. Roosevelt e adversário dos novos rumos adotados pelo presidente Harry S. Truman (1884-1972), conforme cita Voltaire Schilling: “Haverá uma intensificação da espionagem, da maquinaria de publicidade, do duplo jogo diplomático, dos preparativos militares e da planificação econômica, tudo dentro da armação de uma tática psicológica, preparatória do ato final, no transcurso do qual nossa civilização será integralmente destruída”.

A idéia era a substituição de governos civis latino-americanos, com maior ou menor comprometimento com os ideais democráticos e nacionalistas, por governos firmemente alinhados com Washington, preferencialmente liderados por militares. Mesmo porque isto facilitaria a venda do imenso parque bélico da II Guerra, agora obsoleto, para governos fantoches, ávidos por demonstrarem fidelidade ao Tio Sam.

Uma América Latina sangrada pelo militarismo   Era o início das ditaduras latinas, os "estados de segurança nacional", que reprimiam a "ameaça comunista", o "comunismo ateu", o "perigo vermelho".

Isto garantiu, na prática, que nenhum destes países migrasse para o Segundo Mundo - muito menos para o Primeiro... Éramos o "quintal" dos Estados Unidos" (aliás, parece que ainda somos).

Uma América Latina sangrada pelo militarismo
(Lynn M. Randolph, U. S. Peace Plan, 1990)
Citado por Voltaire Schilling em seu site (ver Fontes)

Há muito tempo o termo "subdesenvolvido" não é mais empregado. Foi trocado pelo termo "em desenvolvimento" na década de 70 e hoje somos "emergentes", um termo politicamente mais correto... As palavras mudaram. As palavras.

Nunca é demais lembrar como os versos de Chico Buarque ("Vai passar"), escritos no fim da década de 70 (auge da Guerra Fria) permanecem atuais:

(...)

Num tempo
Página infeliz da nossa história
Passagem desbotada na memória
Das nossas novas gerações

Dormia
A nossa pátria mãe tão distraída
Sem perceber que era subtraída
Em tenebrosas transações

Seus filhos
Erravam cegos pelo continente
Levavam pedras feito penitentes
Erguendo estranhas catedrais

(...)

Na África, revoluções eventuais em alguns países mudavam os alinhamentos, mas nenhum país africano conseguiu desenvolver-se efetivamente.

A história da Ásia durante a Guerra Fria é bem mais complexa - foi o palco de enfrentamento armado entre os dois blocos - casos da Coréia e Vietnam, com milhões de mortos entre as populações locais.

O Poder Nuclear

O poder nuclear remonta a experiências feitas na Alemanha nazista. Na época, a Alemanha era o país mais avançado em Física. Os cientistas alemães tentavam obter elementos transurânicos, bombardeando urânio com nêutrons. Foi desta forma que, em 1938, Otto Hahn (1879-1968), Prêmio Nobel de Química em 1944 pela descoberta da fissão nuclear, Lise Meitner (1878-1968), Fritz Strassmann (1902-1980) e Otto Robert Frisch (1904-1979) conseguiram fissionar (quebrar) urânio (U235) em outros átomos e liberar muita energia. Nesta quebra vários produtos de fissão são possíveis, ou seja, diversas reações nucleares ocorrem simultaneamente. Em qualquer fissão são liberados 2 ou 3 nêutrons, que provocam novas fissões nucleares (reação em cadeia). Uma reação destas, controlada, gera calor, que pode ser utilizado para geração de energia elétrica - um reator nuclear, uma usina nuclear. Uma reação descontrolada gera uma explosão - a bomba atômica.

Trabalhando sob a liderança Werner Karl Heisenberg (1901-1976), Prêmio Nobel de Física de 1932 pela criação da mecânica quântica, os cientistas estabeleceram os princípios teóricos para a construção da bomba atômica. Ressalte-se que parte destes físicos eram pacifistas, não compactuando necessariamente com as idéias e práticas do famigerado "Führer".

Em 1939, Niels Bohr (1885-1962), Prêmio Nobel de Física de 1922 por sua investigação da estrutura atômica e da radioatividade, levou para os Estados Unidos as descobertas dos cientistas alemães.

Hitler não obteve a bomba atômica, em parte por perseguições a muitos dos físicos envolvidos no projeto, por motivos políticos ou raciais. A insana perseguição a judeus, sindicalistas, comunistas, homossexuais, protestantes, deficientes físicos e mentais, prisioneiros soviéticos da II Guerra, testemunhas de Jeová e outros que não fizessem parte da "raça pura" havia começado. A eliminação (assassinato) destas pessoas, sobretudo judeus, é chamada de Holocausto, um dos momentos mais vergonhosos da espécie humana.

Mas, mesmo não dispondo da bomba, Hitler disparou o gatilho atômico sobre a Humanidade.

Em 1939, o físico alemão Albert Einstein (1879-1955), Prêmio Nobel de Física de 1921 por seus trabalhos sobre o efeito fotoelétrico e outras pesquisas no campo da física teórica, escreveu uma carta ao presidente americano, Franklin Roosevelt, avisando que os alemães podiam estar desenvolvendo a bomba "A". Há até hoje uma controvérsia sobre a real intenção da carta de Einstein - segundo alguns, seria apenas um alerta e a sugestão de contramedidas; outros afirmam que ele teria sugerido diretamente que os Estados Unidos construíssem a bomba.

A resposta do governo americano foi rápida: em 1941 foi criado o Projeto Manhattan, cujo objetivo era a construção da bomba atômica para contrapor-se a Hitler. Sob a direção de Robert Oppenheimer (1904-1967) trabalharam no projeto cerca de 200 físicos de primeira linha, como Enrico Fermi (1901-1954), italiano, Prêmio Nobel de Física em 1938 por sua demonstração da existência de novos elementos radioativos produzidos por irradiação de nêutrons e sua descoberta de reações nucleares causadas por nêutrons lentos. Fermi, forçado a deixar a Itália em 1936 pelo regime fascista, é conhecido como o "arquiteto da era nuclear".

O primeiro teste foi realizado com a bomba de plutônio (conhecida como "Gadget") montada no topo de uma torre metálica, em Trinity, a 100 km de Alamogordo, uma região desértica do Novo México (16 de julho de 1945).

A potência da bomba foi de 18,6 mil toneladas (kilotons) de TNT. [ fotos ]

  Explosão de Alamogordo

Crédito: AP/Wide World Photos

Eles haviam construído mais duas bombas, uma utilizando urânio (inicialmente chamada de "Thin Man", em alusão a Franklin Roosevelt, depois rebatizada para "Little Boy") e a outra utilizando plutônio (chamada "Fat Man", em alusão a Winston Churchill).

Benito Mussolini havia sido fuzilado em 28 de abril de 1945. Em 30 de abril de 1945 Adolf Hitler cometia suicídio, em meio à tomada de Berlin pelas tropas soviéticas. A capital alemã foi ocupada em 2 de maio. No dia 7 a Alemanha rendia-se incondicionalmente. A II Guerra estava praticamente terminada. Os conflitos restantes aconteciam com o Japão, no palco do Pacífico.

Alguns dos cientistas envolvidos no projeto enviaram uma petição ao novo presidente americano, Harry S. Truman, solicitando que os Estados Unidos enviassem um ultimato ao Japão, evitando um ataque nuclear sem aviso. No entanto, Truman ordenou o ataque nuclear contra 2 cidades japonesas - Hiroshima e Nagasaki.

Apenas 3 semanas após o teste, o bombardeiro B-29 apelidado de Enola Gay (em homenagem à mãe do comandante) jogou a bomba de urânio chamada "Little Boy" sobre a cidade de Hiroshima. Era 6 de agosto de 1945, 8h45min (horário local) [ fotos ].

A bomba pesava 4.400 quilos e tinha 3,2 metros de comprimentos por 74 cm de largura. Lançada a 9.000 metros de altitude, explodiu a uns 500 metros do solo, bem em cima de uma ponte no centro da cidade. No epicentro da explosão, a temperatura chegou ao 4.000 graus e as pessoas simplesmente evaporaram. A "Little Boy" tinha a potência equivalente a 12,5 kilotons de TNT.   Bomba "Little Boy"

No dia 9 de agosto de 1945 o bombardeiro B-29 apelidado de Bock's Car jogou a bomba de plutônio chamada "Fat Man" sobre a cidade de Nagasaki. Na realidade, Nagasaki era o alvo secundário. Foi atingida porque o piloto do B-29 enfrentou artilharia anti-aérea e neblina na área de Kokura, o alvo principal.

A bomba pesava 4.536 quilos e tinha 3,25 metros de comprimentos por 1,5 metros de largura. Explodiu a cerca de 550 metros sobre a cidade, devastando alguns quilômetros quadrados. A "Fat Man" tinha a potência equivalente a 21 kilotons de TNT. A "Fat Man" era mais complexa e bem mais potente do que a "Little Boy". [ fotos ]

Após o final da II Guerra, os americanos realizaram novos testes de bombas de fissão (urânio/plutônio):

Projeto Ano   Localização Bombas
Crossroads 1946   Atol de Bikini 2
Sandstone 1948   Atol de Enewetak 3
Ranger 1951   Deserto de Nevada 5
Greenhouse 1951   Atol de Enewetak 4
Buster-Jangle 1951   Deserto de Nevada 7
Tumbler-Snapper 1951   Deserto de Nevada 7

Também trabalhou no Projeto Manhattan o famigerado físico húngaro Edward Teller (1908-2003), apelidado de "Doutor Morte". Teller foi um grande entusiasta das armas nucleares e de seu uso para fins de dominação econômica e ideológica dos Estados Unidos sobre os demais povos; décadas depois (março de 1983), Teller também concebeu o Projeto SDI - Strategic Defense Initiative, conhecido como "Star Wars" - o delírio militarista do ex-ator de filmes de caubói e ex-presidente americano Ronald Walter Reagan (1911-2004).

Teller, no entanto, não permaneceu por muito tempo no Projeto Manhattan - ele queria mais, uma bomba mais potente, uma bomba que pudesse "assassinar uma nação inteira" ("killing a nation"), isto é, a bomba de hidrogênio, ou bomba de fusão. Com o auxílio do matemático Stanislaw Marcin Ulam (1909-1984), Teller desenvolveu a sua bomba de hidrogênio.

O primeiro teste foi chamado de "Operation Ivy", consistindo de duas bombas: a "Yvi Mike" e a "Ivy King".

Assim, em 31 de outubro de 1952 os americanos explodiram a primeira bomba de fusão de deutério (isótopo do hidrogênio, conhecido como "água pesada"). Chamada de "Yvi Mike", sua potência era de 10,4 megatons, cerca de 650 vezes a potência das bombas de Oppenheimer.

Era disparada por uma bomba de plutônio, que acionava um segundo estágio, um cilindro de deutério líquido.

  Bomba "H" Ivi Mike

A bomba era um dispositivo complexo, de 82 toneladas, montado na Ilha de Elugelab, parte do Atol de Enewetak, nas Ilhas Marshall, no Oceano Pacífico. A explosão abriu uma cratera de cerca de 2 km de diâmetro. [ fotos ]

No dia 16 de novembro de 1952 foi lançada de um bombardeiro B-36 a maior bomba de fissão já disparada até aquela data: a Ivy King, de 500 quilotons.

Seguiram-se dezenas de testes nos próximos anos.

Detalhes de todos os testes americanos podem ser vistos em Gallery of U.S. Nuclear Tests.

O infame Teller

Insatisfeito com a nomeação de Robert Oppenheimer como dirigente máximo do GAC (General Advisory Committee) em 1946, o infame Teller conspirou contra o pai da bomba "A" americana (que revelava um lado pacifista que incomodava à extrema direita macarthista). Segundo Teller, Oppenheimer não merecia mais a confiança da equipe de cientistas atômicos norte-americanos, e talvez fosse até um espião soviético. Em 1953 Oppenheimer foi afastado do GAC e perdeu seu Security clarence, o certificado de segurança.

Baseado nesta figura infame, o cineasta Stanley Kubrick prodiziu em 1964 o filme Dr. Strangelove (em português: "Doutor Fantástico"). O personagem principal, um general física e mentalmente deformado, que falava inglês com um arrastado sotaque estrangeiro, ordenava um ataque nuclear à União Soviética. No filme, os soviéticos haviam construído a "Máquina do Juízo Final", que responderia automaticamente a qualquer ataque lançando cargas nucleares que destruiriam o mundo completamente.

No ano de sua morte (2003), Teller foi condecorado com a "Medalha da Liberdade", pelo presidente George W. Bush. É este o tipo de liberdade que Bush procura...

Robert Oppenheimer é visto pela comunidade científica como um mártir do macarthismo, um liberal que foi atacado injustamente, um pacifista. Sua intenção, ao desenvolver a bomba americana, era de contrapor-se à expansão nazista.

O Genocídio

O genocídio praticado pelos Estados Unidos no Japão teve os seguintes números oficiais, de acordo com uma pesquisa publicada pelo Ministério da Saúde e do Bem-Estar do Japão: 295.956 mortes. Destas, 25.375 pessoas em Hiroshima e 13.298 em Nagasaki morreram, alegadamente, no dia do bombardeio; as demais morreram desde então, muitas alguns dias após o bombardeio, em decorrência das doenças causadas pela radiação.

B-29 Enola Gay   Estranhamente, os norte-americanos cultuam a memória do Enola Gay como um símbolo nacional, ao invés de se envergonharem do genocídio que cometeram.

É algo tão escandaloso como se os alemães construíssem um museu para homenagear Adolf Hitler.

  Adolf Hitler

A bomba atômica soviética

A chefia administrativa do projeto de construção da bomba atômica soviética estava a cargo do nefasto Lavrenty Beria (1899-1953), que anteriormente havia sido um dos responsáveis pela execução do "Grande Expurgo" dos anos 30, a mando de Stalin, durante o qual quase 1,4 milhões de soviéticos, em sua maioria membros do Partido Comunista, foram enviados a campos de concentração e fuzilados. O motivo, claro, era a discordância dos rumos que a Revolução Russa havia tomado após a morte de Lênin (1870-1924).

A coordenação técnica do projeto ficou a cargo do físico Igor Kurchatov [ foto ], que contava com a colaboração dos também físicos Julii Borisovich Khariton (1904-1996) e Andrei Dmitrievich Sakharov (1921-1989) [ foto ]. Nunca é demais lembrar o extenso currículo de Sakharov: além da participação no projeto e construção da bomba atômica soviética e de ter liderado o projeto e a construção da bomba de hidrogênio soviética, também foi um importante defensor dos direitos humanos, das liberdades civis e das reformas soviéticas do final da década de 80. Foi agraciado com o Prêmio Nobel da Paz em 1975 (mas foi impedido de recebê-lo), quando era considerado um "dissidente" - nome dado a todos aqueles que contestavam de alguma forma o regime soviético. Sakharov foi condecorado e punido diversas vezes pelo governo central, numa demonstração clara da imensa confusão ideológica em que a União Soviética foi jogada pelas disputas de poder dentro do Partido Comunista.

O projeto nuclear soviético teve início nas redondezas de Moscou; posteriormente foi transferido para Sarov, na região de Nizhny Novgorod Oblast, Rússia. Sarov foi totalmente cercada por forças militares e durante 45 anos foi riscada de todos os mapas por motivos de sigilo.

Por insistência de Beria, o primeiro dispositivo a ser testado deveria ser equivalente ao projeto americano "Fat Man"; seu poder deveria ser de uns 20 kilotons de TNT, similar à bomba americana jogada em Nagasaki, Japão.

Os norte-americanos gostam muito de acusar os soviéticos de terem fabricado a sua bomba roubando os projetos secretos das bombas atômicas americanas. Isto é apenas parcialmente verdadeiro. Alguns espiões infiltrados no Projeto Manhattan (como Alan Nunn May, Emil Julius Klaus Fuchs, Theodore Hall e alguns outros) de fato obtinham informações secretas. Em julho de 1950 o FBI prendeu o engenheiro elétrico Julius Rosenberg (1918-1953) e sua mulher, Ethel Greenglass Rosenberg (1915-1953) [ foto ], suspeitos de participação no "esquema Fuchs" (entrega de segredos nucleares aos soviéticos). Mesmo alegando inocência até o fim, o casal foi condenado à morte e executado em 19 de junho de 1953, na Prisão de Sing-Sing, em New York. A culpa do casal Rosenberg jamais foi inteiramente comprovada.

Mas, como nem mesmo os cientistas americanos tinham acesso a todo o projeto, as informações colhidas pela espionagem eram muito fragmentadas. A idéia de Beria era duplicar todos os esforços americanos; assim, as informações obtidas pelos espiões eram utilizadas para verificar se os cientistas soviéticos estavam no caminho mais rápido para a obtenção do resultado final. Beria mantinha diversas equipes trabalhando nos mesmos problemas, e comparava os resultados entre as equipes e contra os resultados americanos, obtidos pela espionagem.

Assim, em 29 de agosto de 1949, na localidade de Semipalatinsk, Kazaquistão, os soviéticos explodiram a sua primeira bomba atômica (que os americanos chamaram de Joe 1 [ foto ] ). Como solicitado por Beria, sua potência era de 22 kilotons. O teste bem sucedido surpreendeu os norte-americanos, que não esperavam uma bomba soviética apenas 4 anos após a explosão de Alamogordo.

O segundo teste foi realizado em 12 de agosto de 1953, em Semipalatinsk, Kazaquistão, com a bomba apelidada pelos americanos de Joe 4 [ foto ]. Sua potência era de 400 kilotons de TNT. Era uma "falsa bomba de hidrogênio".

A primeira bomba pura de hidrogênio soviética foi disparada em 22 de novembro de 1955, em Semipalatinsk, Kazaquistão.  Os soviéticos a denominaram de RDS-37 [ foto ]. Era uma bomba termonuclear com potência de 1,6 megatons de TNT.

Detalhes de todos os testes soviéticos podem ser vistos em Soviet Nuclear Test Summary.

Um resumo interessante está em History of nuclear weapons.

A divisão do mundo

Um dia após a explosão bem sucedida de Alamogordo, foi iniciada a Conferência de Potsdam (Alemanha, de 17 de julho a 2 de agosto de 1945), que reuniu as três aves de rapina que iriam repartir os restos fumengantes do mundo que eles tinham ajudado Adolf Hitler a destruir (Churchill, Truman e Stalin).

Churchill, Truman e Stalin

Churchill, Truman e Stalin na Conferência de Potsdam

Ao ser informado do sucesso do teste nuclear, Truman endureceu sua posição na conferência e tentou limitar a influência soviética na Europa. Grande parte dos historiadores aponta o lançamento das bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki (agosto de 1945) como o marco inicial da Guerra Fria. Ocorre que o Japão já estava militarmente derrotado e, segundo algumas fontes, negociando a sua rendição. Assim, as bombas tiveram o objetivo maior de intimidar a União Soviética. Teria sido o tiro inicial da Guerra Fria.

O propósito dos Estados Unidos, para esses historiadores, foi de intimidar Moscou e conter o avanço do comunismo. Em fevereiro de 1947, Truman fez no Congresso americano um discurso que mais tarde ficaria conhecido como "Doutrina Truman". O presidente prometia acabar com a chamada "ameaça comunista" em qualquer parte do mundo onde ela surgisse. Era apenas o início de uma longa temporada de tensões internacionais que caracterizariam a Guerra Fria.

Em 7 de outubro de 1949 a Alemanha foi dividida entre os dois impérios: a área ocupada pelo exército soviético tornou-se a República Democrática da Alemanha e passou a integrar o bloco socialista. Sua capital era a parte oriental da cidade de Berlim, também dividida em duas, pelo chamado "Muro de Berlin", ou muro da vergonha. Já a parte ocupada pelos americanos foi chamada de República Federativa da Alemanha, com capital em Bonn.

Em 1950 os Estados Unidos constituíram a NATO (OTAN - Organização do Tratado do Atlântico Norte) - pacto de defesa mútua entre os países capitalistas. Os primeiros países a integrarem a OTAN foram Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Canadá, Bélgica, Dinamarca, Islândia, Itália, Luxemburgo, Holanda, Noruega e Portugal. Em 1952, entraram a Grécia e a Turquia, e a Alemanha Ocidental posteriormente, em 1955.

A criação da OTAN consagrava a divisão da Europa em dois blocos antagônicos. Em 14 de maio de 1955, Nikita Khrushchev (1894-1971), sucessor de Stalin, criou o Pacto de Varsóvia, um organismo militar de defesa mútua criada como resposta à adesão da Alemanha Ocidental à OTAN. O Pacto teve, no início, a participação da União Soviética, Albânia, Bulgária, Romênia, Hungria, Polônia, Tchecoslováquia e da Alemanha Oriental.

A espionagem foi um dos aspectos mais relevantes da Guerra Fria. As duas agências de "inteligência" (a KGB soviética e a CIA americana) treinavam agentes para atos de sabotagem, torturas, assassinatos, chantagens e coleta de informações. Os países satélites das duas potências, bem como os do submisso Terceiro Mundo, constituíram agências nos mesmos moldes (se não de eficiência, pelo menos de crueldade).

Em ambos os lados criou-se um clima de histeria coletiva, em que qualquer cidadão poderia ser acusado de espionagem a serviço do inimigo. Na União Soviética, Stalin confinou muitos de seus adversários em campos de concentração na Sibéria, fuzilando grande parte deles.

Nos Estados Unidos, o senador anticomunista Joseph McCarthy (1908-1957) promoveu uma verdadeira caça às bruxas (de 1948 até meados dos anos 50), levando ao desespero inúmeros intelectuais, artistas, professores, cientistas, acusados de colaborar com Moscou (ou de não serem "suficientemente anticomunistas").

Um dos muitos alvos da fúria de McCarthy foi o cineasta Charles Chaplin (autor da célebre frase "Não sois máquinas, homens é que sois". Perseguido pelo FBI, Chaplin acabou deixando os Estados Unidos em 1952, instalando-se na Suíça.

O equilíbrio entre as duas superpotências

Sempre se fala que um dos perigos dos artefatos nucleares é que eles possam "cair em mãos erradas". Parece claro que os artefatos nucleares já nasceram em "mãos erradas" e que já provocaram o "pior cenário". Afinal, os americanos atacaram dois alvos civis com bombas atômicas, provocando algo próximo a meio milhão de mortos e feridos, coisa que nem a Al-Qaeda tentou até hoje.

Não tivesse a União Soviética equilibrado o jogo nuclear, o presidente americano Harry S. Truman (que governou de 1945 a 1953) poderia ter continuado a plantar seus "cogumelos atômicos" onde bem entendesse. Da mesma forma Stalin, caso a União Soviética tivesse obtido os artefatos nucleares muito antes dos americanos, dificilmente teria resistido à tentação de realizar pelo menos algum ataque nuclear.

No momento em que as duas potências tinham poder de fogo suficiente para destruir o mundo 200 vezes (o que se estimava na época, talvez com um certo exagero), ficava claro que ninguém poderia atacar. Era um equilíbrio perigoso, mas necessário - o equilíbrio do terror.

Além dos Estados Unidos e da União Soviética, o clube nuclear rapidamente adquiriu um novo integrante: a Inglaterra (primeiro teste em 3 de outubro de 1952). Posteriormente outros países realizaram seus testes nucleares: França (13 de fevereiro de 1960), China (16 de outubro de 1964), Índia (18 de maio de 1974) e Paquistão (28 de maio de 1998).

No dia 1º de março de 1953 Stalin sofreu um derrame que paralisou o seu lado direito; ele acabou morrendo no dia 5. Até hoje circulam boatos de que ele foi envenenado com warfarin (um veneno para ratos que pode causar derrames e hemorragias cerebrais). Se Stalin realmente morreu por causa de veneno para ratos, ele há de ter tido um final adequado...

Após uma briga ferrenha pelo poder, Nikita Khrushchev tornou-se o Secretário Geral do Partido Comunista em 7 de setembro, passando a deter o poder de fato. Uma das primeiras providências foi fuzilar seu maior rival, o chefe da NKVD (polícia secreta), o perigoso Lavrenty Beria, em 23 de dezembro. Khrushchev foi Secretário Geral do PC até 1964, tendo acumulado o cargo de Premier da União Soviética a partir de 1958.

Em 23 de fevereiro de 1956, Khrushchev denunciou o "culto à personalidade" e os crimes de Stalin cometidos durante o "Grande Expurgo", em sua famosa "fala secreta" para os delegados do XX Congresso do Partido Comunista. Desnecessário dizer o impacto que tais denúncias provocaram em todo o mundo comunista.

Também os Estados Unidos mudavam o seu comando: saía Truman, sob muitos aspectos comparável a Stalin, e tomava posse Dwight David "Ike" Eisenhower (1890-1969). Eisenhower havia sido o comandante supremo das forças dos Aliados na Europa durante a II Guerra. Presidiu os Estados Unidos por 8 anos, de 1953 a 1961.

Eisenhower assinou um cessar-fogo na Guerra da Coréia em julho de 1953 e, auxiliado pelo infame Secretário de Estado, John Foster Dulles, passou a financiar e armar todo e qualquer grupo militar ou pára-militar no Terceiro Mundo que pudesse derrubar algum governo que não fosse submisso a Washington.

Milhões de pessoas morreram no Terceiro Mundo pela disputa entre as grandes potências. Só no Vietnam foram mais de 3 milhões de mortos entre a população local. Financiamento de guerrilhas, golpes de estado, quarteladas, subornos, venda de armamentos, guerras localizadas, sabotagens, assassinatos, torturas e muito mais. Era a receita dos senhores Eisenhower e Khrushchev.

Se Stalin e Truman eram semelhantes nos métodos e nos objetivos finais (os seus impérios), Eisenhower e Khrushchev poderiam ser ditos irmão gêmeos. Ao invés de campos de concentração e bombas atômicas sobre populações civis, os métodos agora eram mais refinados, mais indiretos, embora não menos brutais.

Os foguetes e a Era Espacial

Com este breve resumo sobre os passos iniciais da Guerra Fria, conseguimos vislumbrar qual o papel real dos foguetes neste cenário - transportar bombas atômicas.

No entanto, verificou-se na União Soviética e nos Estados Unidos um fenômeno curioso: tanto Sergei Pavlovich Korolev, projetista-chefe de todos os artefatos espaciais soviéticos até 1966 (ano de sua morte), quanto Wernher von Braun, pai da bomba voadora V-2 alemã e projetista que levou os americanos à Lua, tinham pouco ou nenhum interesse em armamentos, e as contribuições que eles deram à ciência foram infinitamente mais importantes do que as concessões que tiveram de fazer aos militares de seus países.

Fontes:

Hiroshima and Nagasaki, 1945 - Site com fotografias dos ataques atômicos perpetrados pelos Estados Unidos contra alvos civis japoneses (Hiroshima e Nagasaki) em 1945.

História por Voltaire Schilling - Site sobre História, do Prof. Voltaire Schilling

Missile Threat - Projeto do Claremont Institute

Monitor Nuclear - Alexandre Andrade - Site bastante completo sobre a história da energia nuclear

Nuclear Files - Projeto da Nuclear Age Peace Foundation

Nuclear Information and Resource Service - Fundação Ambientalista

The Nuclear Weapon Archive - A Guide to Nuclear Weapons

U.S. Nuclear Accidents - Site de "allen lutins" sobre os acidentes nucleares norte-americanos

Waging Peace.org - Site da Nuclear Age Peace Foundation

Wikipedia, the free encyclopedia

História da Conquista Espacial © Karl H. Benz